Tag: Iraque

35 perguntas e 34 respostas sobre a guerra contra o Iraque.

35 PERGUNTAS E 34 RESPOSTAS SOBRE A GUERRA CONTRA O IRAQUE.

por Cláudio Júlio Tognolli

1. Qual a porcentagem da população dos EUA na população mundial?

Resposta: 6%.

2. Qual a porcentagem do poder econômico dos EUA na riqueza mundial?

Resposta: 50%.

3. Qual país tem as maiores reservas de petróleo do mundo?

Resposta: A Arábia Saudita.

4. Qual país tem as segundas maiores reservas de petróleo do mundo?

Resposta: O Iraque.

5. Quanto somam os gastos militares por ano, em todo mundo?

Resposta: Aproximadamente US$ 900 bilhões.

6. Quanto gasta o Governo dos Estados Unidos, dentro desse total?

Resposta: 390 bilhões de dólares, aprovados pelo Congresso Nacional.

7. Quantas pessoas foram mortas nas guerras realizadas desde a 2ª Guerra Mundial até agora?

Resposta: 86 milhões de pessoas.

8. Quando apareceram armas químicas no Iraque na década de 80, durante a guerra contra o Irã e depois em 1991, essas armas foram desenvolvidas pelos Iraquianos?

Resposta: Não; as fábricas e a tecnologia foram montadas e fornecidos pelo governo dos EUA, em associação com a Grã-Bretanha e empresas particulares daqueles países.

9. O governo dos EUA condenou o uso de gás pelo Iraque na guerra contra o Irã, na década de 80?

Resposta: Não.

10. Quantas pessoas o Governo Saddam Hussein matou usando gás contra a cidade curda e Halabja em 1988, localizada no norte do Iraque?

Resposta: 5 mil pessoas, todos civis.

11. Quantos governos de países do Ocidente condenaram essa ação?

Resposta: Nenhum!!

12. Existem provas de ligação entre o Iraque e o ataque de 11de setembro?

Resposta: Nenhuma.

13. Qual foi o número estimado de mortes de pessoas civis na 1ª Guerra do Golfo em 1991?

Resposta: 35 mil.

14. Quantas baixas o exército iraquiano infligiu às tropas ocidentais durante a 1ª Guerra do Golfo?

Resposta: Insignificantes.

15. Quantos soldados iraquianos em retirada foram enterrados vivos pelos tanques dos EUA equipados com lâminas de terraplanagem?

Resposta: 6 mil soldados.

16. Quantas toneladas de urânio enriquecido foram utilizados na munição na 1ª Guerra do Golfo, m 1991?

Resposta: 40 toneladas.

17. Qual foi, segundo a ONU, o aumento dos casos de câncer no Iraque

entre 1991 e 1994?

Resposta: 700%.

18. O Exército dos EUA destruiu que porcentagem da capacidade militar do Iraque, na guerra de 1991?

Resposta: 80% das forças armadas iraquianas.

19. O Iraque representou uma ameaça à paz mundial nos últimos dez anos ou a soberania de algum país?

Resposta: Não.

20. Quantas mortes de civis o Pentágono prevê no caso de um ataque em 2003?

Resposta: 10 mil. Mas o responsável pela comissão de direitos humanos da ONU entregou recente relatório ao Governo Bush, prevendo 350.000 civis mortos, um milhão de desalojados, e dois milhões tenderiam a migrar para outros países.

21. Quantas dessas mortes serão de crianças?

Resposta: 175.000

22. Há quantos anos os EUA realizam ataques aéreos e bombardeios contra o Iraque?

Resposta: 11 anos. Inclusive usando armas químicas e biológicas, como denunciou no FSM- 2003, a Irmã Sherine, da congregação dos Dominicanos. Relatórios da ONU indicam que foram utilizados nesse período em torno de 9 mil toneladas de explosivos nos ataques ao Iraque.

23. Qual era a mortalidade infantil no Iraque em 1989?

Resposta: 38 para cada mil nascidos vivos.

24. Qual era a mortalidade infantil estimada em 1999?

Resposta: 131 por mil nascidos vivos, um aumento de 345%.

25. Qual a estimativa de iraquianos mortos entre 1991 até outubro de 1999 devido às sanções da ONU?

Resposta: 1,5 milhão e cerca de 50% eram crianças.

26. Quantas resoluções da ONU contra Israel os EUA vetaram desde 1992?

Resposta: 30.

27. Qual valor da ajuda anual do governo dos EUA para o governo de Israel?

Resposta: US$ 5 bilhões, como crédito para compra de armas nos Estados Unidos.

28. Quantos países do mundo possuem armas atômicas?

Resposta: Apenas 8: Estados Unidos, França, Rússia, China, Inglaterra, Índia, Paquistão, Israel.

29. Quantas ogivas nucleares o Iraque possui?

Resposta: Nenhuma.

30. Quantas ogivas nucleares os EUA possuem?

Resposta: Mais de 10 mil.

31. Quantas ogivas nucleares Israel possui?

Resposta: Mais de 400. O físico nuclear israelense Modechai Vanunu, que trabalhou nas plantas nucleares e denunciou pela primeira vez ao mundo na década de 80, foi seqüestrado pela policia israelense na Itália, conduzido aos tribunais e condenado a 30 anos de prisão, aonde se encontra até hoje. Por essa razão recebeu o Prêmio Nobel Alternativo de 1992.

32. Alguma vez Israel permitiu inspeções de armas pela ONU?

Resposta: Não.

33. Qual porcentagem dos territórios palestinos está sob controle de colônias de judeus implantadas depois de 1991 pelos governos direitistas de Israel?

Resposta: 42% do território palestino da Cisjordânia.

34. A invasão desse território por colonos trazidos pelo governo de Israel está respaldada em alguma convenção internacional?

Resposta: Não. São completamente ilegais, há inclusive resoluções da ONU para sua devolução. E há forte oposição dos partidos progressistas de Israel.

35. Qual país, na sua opinião, constitui a maior ameaça à paz mundial, o Iraque ou os Estados Unidos?

Essa pergunta fica para você refletir e responder!

Cláudio Júlio Tognolli é jornalista.

Anúncios

OBRIGADO, presidente BUSH

OBRIGADO, presidente BUSH

PAULO COELHO

ESPECIAL PARA A FOLHA

Obrigado, grande líder George W. Bush.

Obrigado por mostrar a todos o perigo que Saddam Hussein representa. Talvez

muitos de nós tivéssemos esquecido de que ele utilizou armas químicas contra

seu povo, contra os curdos, contra os iranianos. Hussein é um ditador

sanguinário, uma das mais claras expressões do mal hoje.

Entretanto essa não é a única razão pela qual estou lhe agradecendo. Nos

dois primeiros meses de 2003, o sr. foi capaz de mostrar muitas coisas

importantes ao mundo, e por isso merece minha gratidão. Assim, recordando

um poema que aprendi na infância, quero lhe dizer obrigado.

Obrigado por mostrar a todos que o povo turco e seu Parlamento não estão à

venda, nem por 26 bilhões de dólares.

Obrigado por revelar ao mundo o gigantesco abismo que existe entre a

decisão dos governantes e os desejos do povo. Por deixar claro que tanto

José María Aznar como Tony Blair não dão a mínima importância e não têm

nenhum respeito pelos votos que receberam. Aznar é capaz de ignorar que 90%

dos espanhóis estão contra a guerra, e Blair não se importa com a maior

manifestação pública na Inglaterra nestes 30 anos mais recentes. Obrigado

porque sua perseverança forçou Blair a ir ao Parlamento com um dossiê

falsificado, escrito por um estudante há dez anos, e apresentar isso como

“provas contundentes recolhidas pelo serviço secreto britânico”.

Obrigado por fazer com que Colin Powell se expusesse ao ridículo, mostrando

ao Conselho de Segurança da ONU algumas fotos que, uma semana depois, foram

publicamente contestadas por Hans Blix, o inspetor responsável pelo

desarmamento do Iraque.

Obrigado porque sua posição fez com que o ministro de Relações Exteriores

da França, sr. Dominique de Villepin, em seu discurso contra a guerra,

tivesse a honra de ser aplaudido no plenário, honra que, pelo que eu saiba,

só tinha acontecido uma vez na história da ONU, por ocasião de um discurso

de Nelson Mandela.

Obrigado porque, graças aos seus esforços pela guerra, pela primeira vez as

nações árabes, geralmente divididas, foram unânimes em condenar uma invasão,

durante encontro no Cairo.

Obrigado porque, graças à sua retórica afirmando que “a ONU tem uma chance

de mostrar sua relevância”, mesmo países mais relutantes terminaram tomando

posição contra um ataque.

Obrigado por sua política exterior ter feito o ministro de Relações

Exteriores da Inglaterra, Jack Straw, declarar em pleno século 21 que “uma

guerra pode ter justificativas morais” e, ao declarar isso, perder toda a

credibilidade.

Obrigado por tentar dividir uma Europa que luta pela sua unificação; isso

foi um alerta que não será ignorado.

Obrigado por ter conseguido o que poucos conseguiram neste século: unir

milhões de pessoas, em todos os continentes, lutando pela mesma idéia,

embora essa idéia seja oposta à sua.

Obrigado por nos fazer de novo sentir que, mesmo que nossas palavras não

sejam ouvidas, elas pelo menos são pronunciadas, e isso nos dará mais força

no futuro.

Obrigado por nos ignorar, por marginalizar todos aqueles que tomaram uma

atitude contra sua decisão, pois é dos excluídos o futuro da Terra.

Obrigado porque, sem o sr., não teríamos conhecido nossa capacidade de

mobilização. Talvez ela não sirva para nada no presente, mas será útil mais

adiante.

Agora que os tambores da guerra parecem soar de maneira irreversível, quero

fazer minhas as palavras de um antigo rei europeu a um invasor: “Que sua

manhã seja linda, que o sol brilhe nas armaduras de seus soldados, porque

durante a tarde eu o derrotarei”.

Obrigado por permitir a todos nós, um exército de anônimos que passeiam

pelas ruas tentando parar um processo já em marcha, tomarmos conhecimento do

que é a sensação de impotência, aprendermos a lidar com ela e a

transformá-la.

Portanto, aproveite sua manhã e o que ela ainda pode trazer de glória.

Obrigado porque não nos escutastes e não nos levaste a sério. Pois saiba

que nós o escutamos e não esqueceremos suas palavras.

Obrigado, grande líder George W. Bush.

Muito obrigado.

O escritor Paulo Coelho, autor de “O Alquimista”, entre outros, é

integrante da Academia Brasileira de Letras

Fonte: Folha de São Paulo dia 8 de março de 2003

UMA GUERRA COLONIAL

UMA GUERRA COLONIAL

por Waldir Rampinelli

Os Estados Unidos estão prestes a cometer um dos maiores massacres da história: a guerra contra o Iraque. Segundo as Nações Unidas, cerca de 10 milhões de iraquianos sofrerão diretamente as agruras desse genocídio, entre mortos, feridos, refugiados e traumatizados. Hitler é lembrado como o grande carniceiro do século 20 por ter exterminado 6 milhões de judeus.

As manifestações populares contra a guerra, nas mais diversas partes do mundo, têm acusado George W. Bush de trocar sangue por petróleo. É uma das verdades, já que em 2022 os Estados Unidos comprarão, no exterior, dois de cada três barris consumidos. Bush declarou que a segurança energética é uma das principais estratégias de sua política externa.

No entanto, o Pentágono tem uma geoestratégia muito mais importante que a dominação do petróleo iraquiano, qual seja o controle de uma região que é o centro do poder mundial: a Euronásia. Hitler e Stálin, nas negociações secretas ocorridas em novembro de 1940, já haviam acordado em excluir os Estados Unidos da Euronásia, pois não queriam encontrar obstáculos em seus planos de conquista.

A potência que dominar a Euronásia, segundo Brzezinski, poderá controlar duas das três regiões mais produtivas do mundo; 75% da população terrestre; 60% do PNB global; três quartos dos recursos energéticos conhecidos; seis das economias mais importantes da Terra; seis países com armas nucleares; dois com uma densidade demográfica enorme e aspirações hegemônicas regionais; enfim, todos aqueles Estados capazes de desafiar a supremacia estadunidense. O poder acumulado dos países da Euronásia chega a superar o do Pentágono algumas vezes. Logo, poderia estar ali um rival de Washington (Zbigniew Brzezinski, El gran Tablero Mundial, Barcelona, Paidós, 1998).

Os Estados Unidos, durante a Guerra Fria, utilizaram-se da Europa para conter e controlar parte da Ásia. O Plano Marshall, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, os acordos militares bilaterais foram algumas das estratégias usadas. No entanto, com o desmoronamento da União Soviética, o antiamericanismo francês se torna política de Estado e o desejo de independência alemã vira ousadia de alguns de seus dirigentes. Por isso, uma Europa em expansão, que se converta em uma cabeça de ponte para a dominação estadunidense da Ásia, mostra, a cada dia que passa, sinais de resistência. A queda dos símbolos de dominação dos Estados Unidos, no 11 de setembro, foi comemorada com júbilo em círculos políticos restritos europeus. Daí a necessidade de uma guerra não apenas contra o Iraque, mas também de submissão européia.

Esse genocídio – política de destruição em massa e sistemática de um povo e de sua nação – trará conseqüências imediatas no conjunto das relações internacionais: a) descrédito iraquiano generalizado dos organismos internacionais multilaterais, de modo especial as Nações Unidas; b) aumento do terrorismo de grupos em proporção direta ao terrorismo estatal; c) crescimento do sentimento antiamericano, que em um segundo momento poderá se transformar em uma consciência antiimperialista; d) possibilidade de potências regionais medianas aumentarem sua hegemonia em contraposição ao poder imperial.

E a população dos Estados Unidos que atitude tem diante desse remapeamento do mundo que dá ao seu presidente um poder sem limites e um domínio sem igual?

O historiador Paul Kennedy mostra que há um distanciamento muito grande entre os políticos e intelectuais conservadores e o estadunidense comum. As amostragens de opinião, realizadas ao longo de 2002, indicam, cada vez mais, um público prudente e internacionalista. Por sua vez, as pesquisas de deliberação, feitas com pessoas que se reúnem durante um fim de semana para debater em pequenos grupos assuntos internos e externos, com assessoria de especialistas e leituras previamente preparadas, apresentam um resultado ainda mais desfavorável aos planos imperialistas e neocoloniais da Casa Branca. Entrevistados antes e depois de sua reunião prolongada, os dados mudam completamente. Se antes apenas 20% dos inquiridos eram favoráveis a que os Estados Unidos prestassem ajuda externa aos países pobres, depois esse número alcança a cifra de 53%; se antes os participantes defendiam uma política estreita, isolacionista e unilateral, depois passaram a votar por soluções internacionalistas. Nas palavras do professor James Fishkin – da Universidade do Texas e criador desse método -, as pessoas começam o final de semana como cidadãos estadunidenses e terminam como cidadãos globais.

Kennedy, com base nesses estudos, chega a três conclusões: a) os Estados Unidos, apesar de se autointitularem a capital do conhecimento universal, dispõem de sistemas educativos, assim como de meios de comunicação, que não passam para o homem e a mulher comum o que acontece no mundo; b) o autoritarismo da Casa Branca enfraquece o direito internacional e abre perigosos precedentes para que outros governos resolvam seus problemas por meio de ações unilaterais; c) a democracia tende a se enfraquecer cada vez mais.

Tudo isso leva o mundo a incertezas quanto a seu futuro, já que se fica à mercê de guerreiros belicosos e fundamentalistas religiosos que nada mais vêem do que o poder e o lucro. As políticas ultra-imperialistas enunciadas na doutrina Bush são uma verdadeira ameaça para toda a humanidade, já que procedem da mesma lógica hitleriana: modificar, por meio da violência militar, as relações econômicas e sociais em favor do herrenvolk (direito de um povo superior a escravizar outro racialmente inferior) do momento.

Razão tem a escritora estadunidense Susan Sontag quando diz que loucos existem nos Estados Unidos e no Brasil.

No entanto, com uma grande diferença, “já que os nossos chegaram ao poder”.

Waldir José Rampinelli é professor da UFSC, com doutorado em ciências sociais pela PUC/SP.

Fonte: Revista CAROS AMIGOS